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Lembrou que no bolso do macacão vermelho guardara o teste de gravidez, que não havia tido tempo de ver o resultado no banheiro do aeroclube. O monomotor já se encontrava na pista de decolagem, e precisava de toda a equipe para empurrá-lo até que motor da velha aeronave desse partida. Correndo ao lado do avião, Adelaide e os outros paraquedistas amadores jogavam suas mochilas através da porta do monomotor, antes de se atirarem dentro daquela lata velha da Segunda Guerra.
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De repente ela conseguia ver os seus pés sobre a Cidade. Os altos prédios ao longe pareciam pequenos blocos de montar, empilhados metodicamente no canto do quarto de uma criança. O bairro residencial que sobrevoava se descortiva a medida que Adelaide saía de dentro de uma nuvem. Ela não sabia, mas aquele seria o seu último salto de paraquedas.
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Adelaide era amiga de infância da esposa do instrutor de paraquedismo, por isso o seu caso amoroso com o marido da sua melhor amiga a estava consumindo. Sentia a necessidade de receber o castigo apropriado pelo seu crime.
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Adelaide foi muitas coisas ao longo da vida, mas era uma coisa de cada vez. Sabia que podia ser tudo o que senhora um dia, para ela, tudo tinha o seu tempo certo de acontecer.
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O corpo do instrutor de paraquedismo de Adelaide havia afundado 35 centímetros no asfalto, no meio da rua de um bairro residencial nas redondezas do aeroclube. O seu fêmur esquerdo atravessara a clavícula, o direito atravessara a sua garganta. Na noite daquele domingo, Adelaide dormiu com o seu macacão vermelho, chorando no chão do quarto, segurando o teste de gravidez positivo. Carregava o feto de uma vida destinada a ser órfã de pai.